PSPC

28/09/2011

Artigo do capítulo 1 do livro “Vivendo numa sociedade sem lixo”

 

Este artigo é parte do capítulo 1 do livro  que vou publicar chamado “Vivendo numa sociedade sem lixo”

 Considero que é pertinente ao momento que vivemos em nosso projeto.

 

  Vivendo numa sociedade sem lixo

Um enredo possível inspirado no cotidiano, no contraditório e na intuição

 

eu pertenço, não possuo as ideias

elas me possuem, se apoderam

se esclarecem no discurso e na ação

e constroem a minha emoção

 

por incerto

há muitos caminhos



 

Lúcio Renato de Fraga Brusch

No porvir de 2011

Parte I – A situação

 

Capítulo 1

Alicerces:

Observando e construindo referências

Contextualizando

 

A dificuldade que temos em entender a corrente estando dentro dela nos exige ir além das ações e reações. É necessário refletir, construir teorias e buscar significados. Este capítulo inicia a exploração de como fazemos a tentativa, e sobre algumas das formas de encaminhar. Existem formas diversas de visualizar e descrever. A opção que faço é de buscar no cotidiano as pistas para entender os arquétipos que dirigem nossos destinos.

A utilização de diagnósticos é necessária e perigosa. Podemos criar as certezas que não servem para nada e esquecer os detalhes que mais interessam ao final. A forma adequada de valer-se da utilidade dos diagnósticos é quando são integrados sistemicamente a outras fontes de conhecimento e permite-se a maturação dos dados e informações. Neste capítulo faz-se inicialmente a avaliação dos diagnósticos no cotidiano, nas conversas e de forma convergente e recorrente, usando o discurso diagnóstico como guia da síntese, o que não é usual, pois diagnósticos em geral discriminam e classificam, para encaminhar um primeiro arquétipo de entendimento reunindo a ação e a reflexão.

Entre diagnósticos e prognósticos

 

Esta parte trata sobre nossa tendência de construir certeza e de definir as características do que vemos.

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Um aspecto interessante de nossa convivência humana é a influência dos ritos profissionais na vida, ou melhor, no cotidiano das pessoas. Cada profissão possui seu mundo próprio, seu conjunto de valores e suas práticas estabelecidas.

Entre as grandes profissões, talvez a Medicina seja a mais popular e que permite as interações mais frequentes. Afinal todos adoecem de vez em quando e, se tudo correr bem, e envelhecermos, com o passar do tempo os médicos serão parte significativa do grupo de profissionais com quem certamente vamos intensificar relações. Por diversas razões, gerais e particulares, eu tive a oportunidade de assistir, e algumas vezes participar, em conversas realizadas entre médicos. E, também e interessante, participar de encontros onde há um médico e diversos leigos, e onde todo mundo dá palpite acerca de tratamentos e medicações. Estas conversas me trouxeram a clara percepção que os médicos fazem diagnósticos o tempo todo. E que, como todos somos um pouco médicos, também gostamos dos diagnósticos, os expressemos ou não. Bem, após qualquer diagnóstico vem alguma prescrição, uma orientação sobre o que fazer. E a partir de seus diagnósticos os médicos se autorizam a prescrever remédios e tratamentos. Isto é bom quando o fazem dentro de suas especialidades, melhor ainda quando são competentes, mas é interessante, e preocupante, como usam este método todo o tempo, especialmente no convívio social. E percebendo certo incomodo com esta prática comecei a observar que o incomodo se dá por reconhecer que todos nós somos chegados, em nossas relações, a fazer diagnósticos sobre pessoas e situações. Em geral de forma superficial e rápida, e é claro com base em comparações com outros diagnósticos do passado, errados ou não.

Os diagnósticos do cotidiano, que vão desde uma informação repassada a um estranho até as melhores fofocas sobre pessoas, são atos de arrogância. E assim, portanto, devem ser entoados com pompa e circunstância, pois um diagnóstico tem que estar certo. E melhor ainda se for único e decisivo. Na verdade, e com certeza, como se diz todo o tempo por aí.

Os diagnósticos, de uma forma bem nítida, valorizam a vida e as pessoas que os fazem. O grande problema é que é muito difícil fazer diagnósticos, mesmo que a superficialidade os use de forma fútil, na maior parte das vezes. Mas qualquer diagnóstico é feito de um jeito, de uma maneira, que por pior que seja, deve parecer coisa séria, quase científica. Mais um aspecto preocupante.

Já os prognósticos, estes são em geral coisa de profetas, não tem muito de científico. A certeza não é amiga dos prognósticos. Pelo contrário. “Tu vais ver”. Prognósticos são do mundo da emoção, do desejo.

Logo, o mundo razoável vai tentar sempre reduzir a incerteza dos prognósticos e aumentar a certeza dos diagnósticos. E gente da ação gosta de diagnósticos, gente da reflexão gosta de prognósticos.

Uma das características da “gente de ação” é rotular as pessoas, em geral de forma bastante dura, ou sendo menos duro, decisiva. Gente de ação se acha importante e detentores da dita inteligência prática, e muitas vezes são seduzidos pela crueldade. Chama-me a atenção a frase: “fulano ou fulana é assim?”. Como se fosse possível saber! Tudo depende do momento, da situação e do próprio estado interno da pessoa, sua química, sua dinâmica e sua psique. Somente é possível saber sobre os mortos, e ainda assim é só uma versão.

Mas observa-se que muitas pessoas se deixam dominar por veredictos sobre elas mesmas, e não são poucas as situações em que se deixam definir e usam a opinião alheia sobre elas para definirem a si mesmas. Não fosse assim a tirania não seria tolerada. Gente de ação monta exércitos, ou seja, precisa de tipos de pessoas e induz as pessoas a serem do tipo. Fantoches, marionetes, bonecos que se movem. E que lutam e se digladiam com outros bonecos.

Outra característica da ação é que ação exige de sua gente a espontaneidade, bem como a capacidade de correr riscos. Gente de ação é mais simpática. Gente de ação gosta de condomínios. Gente de ação gosta de dinheiro. Gosta muito. E no seu modelo mental, o dinheiro as justifica e lhes aufere sucesso na vida.

Aqui neste texto, por exemplo, e como o livro é uma ação espontânea e com riscos, é necessário fazer diagnósticos, ou pelo menos construir um esquema descritivo, nome mais simpático e que ostenta um ar mais científico.

E os servidores da reflexão? Como seria o diagnóstico? Este tipo de pessoa procura respostas, ou por que realmente quer respostas, ou para escapar um pouco do ditame da ação, ou mesmo da tirania. E das necessidades do dia a dia. E nada melhor que falar do futuro, fazer prognósticos, pois isto é muito menos exigente e adia os enfrentamentos. Algo que algumas pessoas de ação definem como a “covardia da esperança”. Além do mais, a “gente da reflexão” construiu um conjunto de arquétipos, descrito por eles como reais, que lhes dá suporte e significância, em especial os conhecimentos esotéricos e das ciências ocultas. E que além de tudo lhes permite fazer diagnósticos que não lhes responsabilizam, pois a descrição e os prognósticos estão nas cartas, nos astros, na borra do café. Quando são apertados olham para você e aí eles expressam tristeza pelo fato de você ser tão obtuso, não entender nada. Gente de ação no máximo mentaliza, seja lá o que isto signifique. Imaginar é da reflexão.

A gente de ação quer usar você para seus interesses de ação, a gente da reflexão quer usar você para validar suas construções literárias.

Quem administra as cidades, quem administra as empresas, é gente de ação. E gente de ação não otimiza, realiza. Não pode ficar esperando por horóscopo para organizar o trânsito e produzir pão. Gente de ação acaba, no fim do dia, determinando o longo prazo como decorrência futura.

Da perspectiva da busca da sobrevivência gente de ação é fundamental para que alguém viva no curto-prazo e garanta a sobrevivência. Gente de reflexão dá sabor ao futuro, constrói encantamento e, em geral, escapa da maior responsabilidade sobre o fazer, a menos que seja obrigado. Gente de reflexão quer realizar seu potencial e sua vocação, gente de ação quer fazer dinheiro.

E todos querem ter poder, com base em seus regramentos.

A mais ampla e difundida vitória da gente de reflexão é a burocracia. É a grande vingança da gente de reflexão. E sua grande contribuição. E logo, associados e integrados, as carreiras ligadas ao Direito e à Contabilidade. É óbvio que não esqueci as artes e o trabalho intelectual, mas estes são mais óbvios. É muito raro um industrial ou comerciante poeta, mas existem muitos burocratas poetas, músicos, etc., etc. Gente da ação dirige e gente de reflexão assessora. Piloto e copiloto.

Vamos combinar, como dizem os práticos, que ler um livro e deitar falação é melhor que capinar ao sol. Mesmo que se precise comer. A burocracia garante que pareça ser justo que quem nunca plantou um pé de feijão leve uma vida inteira comendo de tudo e se divertindo a valer. Não precisa ser justo, só é preciso parecer justo.

E é também claro que a gente da reflexão criou uma imagem de si mesmo onde se sente superior aos “produtores de coisas físicas, os do mundo da prática e do curto prazo”.

A gente da ação não reflete sobre isto, pois nem aceita se comparar. É melhor e pronto, ponto, desde seu ponto de vista.

Gente de ação come churrasco, gosta de carne mal passada. Gente de reflexão sonha ser vegetariano para não matar os animais e espera um dia fazer Yoga.

Faço parte da gente da reflexão. No entanto, levei muito tempo para aceitar que se pode ser útil, mesmo sendo assim e sem plantar feijão, e hoje até estou mais convencido que se até se pode ser feliz assim, desde que mudando a fonte da energia. A regra mais comum que se pode observar é que felizes são os homens de ação, em especial quando estão na ação. Gente de reflexão, em geral, se encuca e se deprime, quer respostas demais e vive da energia da procura de sentido.

Então, como ser feliz sendo gente da reflexão?

Um jeito, por certo, é incomodando a gente de ação. (eheh)

E como se faz isto?

Ajudando-os a refletir, no plano geral.

E indo à ação de forma mais elaborada e com consciência dos efeitos da ação. Não se deixar dominar pela ação, mas apaixonar-se por ela. Trazer a reflexão para o curto prazo. Sendo um reflexivo na ação. Ter clareza das consequências de uma ação não otimizada e poder descrevê-las.

A questão é: como ampliar as escolhas de direcionamento e das regras de valor dos indivíduos e criar novas opções?

Somos o que aprendemos a ser e nos sentimos seguros sobre as plataformas que construímos ou compartilhamos.

E de onde vem a energia para compatibilizar ação e reflexão, o mito do ser humano com atitude, o ser sensível e produtivo?

Uma pista é a ampliação da visão do mundo, a exploração do ambiente, ir além do seu quadrado, e construir estruturas de base científica capazes de explorar e descrever os equívocos da ação pela ação, bem como da reflexão pela reflexão, e desenvolver novas estratégias.

Começar diagnosticando sobre nossos equívocos e fazendo prognósticos sombrios sobre o futuro tem sido o usual. Mas eu prefiro imaginar um jeito melhor de perceber e contar uma história que trata do que é futurável e estabelecer formas de perceber nossas limitações de entendimento.

No mundo prático, é preciso desenvolver abordagens e métodos adequados para a redução dos impactos da ação e, fato que justifica a valorização da reflexão, a visualização de prognósticos diversos capazes de melhorar a ação. Avançar no que seria uma doxa, opinião positiva e de confiança na capacidade do ser humano de desenvolver soluções e compromisso com o futuro.



Sem ação não se sobrevive,

sem reflexão não se sobreviverá.



E qual é a grande fraqueza da gente de ação?

Gente de ação produz lixo. E muita gente de ação produz muito, muito lixo.

E não há como negar.

E não querem ser responsabilizados pelo lixo que produzem.

 

Gente de reflexão não perfura poços de petróleo, não detona dinamite, não constrói polos petroquímicos, nem navios, nem aviões, não entopem o mundo de embalagens, nem gerenciam matadouros e frigoríficos. Mas gente de reflexão, também se beneficia, e acaba validando, o resultado de tudo isto.

Uma metáfora excelente sobre o que exploro neste ponto do texto é o filme Sangue Negro (título em Português) que apresenta dois personagens que são a caricatura dos dois extremos de ser em relação à vida, um pelo viés da ação e outro pela reflexão, e como ambos criam poder e se antagonizam. O final do filme, melhor vê-lo que descrevê-lo, traz a essência do comportamento de vida e morte dos personagens e de suas percepções da realidade.

Pergunta-se:

Onde estão e quem são os líderes que conseguem harmonizar reflexão e ação?

São raros e imprescindíveis e fonte de inspiração, pois afinal são deles que surgem as novas ideias e os novos paradigmas.

Lideranças inspiradoras e pessoas comuns entusiasmadas é parte considerável da receita da implantação das mudanças e da evolução das perspectivas. Condições ambientais e culturais se somam e uma pitada de acaso e busca de uma nova ordem energizam e impulsionam o movimento.

Continuando.

É esperado que alguém seja capaz de fazer tudo o que é necessário com melhor performance, ou seja, sem produzir lixo.

 

Se não conseguirmos, não poderemos produzir, pois os impactos suplantarão os benefícios. E esta reflexão se revela cada vez mais no mundo observável.

Logo é preciso melhorar a ação da gente de ação.

E diminuir a hipocrisia da gente de reflexão.

 

 

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